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RISCO
Por: José
Roberto Goldim
ocorrência de um evento desfavorável.
A definição de risco engloba uma
variedade de medidas de probabilidades incluindo
aquelas baseadas em dados estatísticos
ou em julgamentos subjetivos.
Risco, de acordo com a Resolução
CNS196/96, é a possibilidade de danos à
dimensão física, psíquica,
moral, intelectual, social, cultural ou espiritual
do ser humano, em qualquer fase de uma pesquisa
e dela decorrente. Caberia distinguir a noção
de risco processo de risco produto.
Risco processo é aquele
a que estão expostos os participantes de
uma pesquisa, os próprios pesquisadores
e os trabalhadores envolvidos, é aquele
risco que ocorre ao longo do projeto. Risco produto
é o risco decorrente do projeto, é
aquele que atinge a sociedade de forma indistinta.
É o risco que resulta dos rejeitos ou de
outras formas de contaminação ambiental,
por exemplo.
As pesquisas com risco maior
que o mínimo ou com uma distribuição
não equitativa dos riscos devem ter uma
justificativa adequada. Shrader-Frechette, propõe
que é eticamente inadequado assumir que
um risco, quando incerto ou desconhecido, é
igual a zero ou seja considerado como não
importante. Outra questão importante é
que somente pode ser utilizada a distribuição
aleatória de grupos de participantes quando
os riscos de cada intervenção ou
droga forem equipolentes (equipoise).
A mais antiga citação
conhecida sobre a utilização de
risco para a tomada de decisão está
contida no Talmud, livro sagrado escrito pelos
rabinos judeus entre os anos 200 e 500 dC. Neste
livro havia um raciocínio sobre a legitimidade
ou não de um homem separar-se de sua mulher,
pela suspeição de que ela poderia
ter tido relações sexuais antes
do casamento. Os rabinos elaboraram a sua resposta
baseando-se no conjunto das alternativas possíveis
(ter tido ou não relações
e ter sido com o próprio marido ou com
outro homem). Com base nestas possibilidades estabeleceram
que o marido não poderia se separar de
sua esposa, pois as chances a seu favor eram menores
que as da esposa. O cálculo de probabilidades
ainda não existia.
A noção matemática
de risco, de acordo com os estudos realizados
por Bernstein, é relativamente recente
na história da humanidade. Este conceito
foi introduzido por Blaise Pascal em 1654, a partir
de suas correspondências com o grande matemático
Pierre de Fermat. Esta troca de informações
tinha por objetivo responder a uma questão
colocada por Paccioli, cerca de duzentos anos
antes, a cerca de como se distribuiriam as fichas
de um jogo entre duas pessoas que fosse interrompido.
Esta discussão foi proposta a Pascal pelo
Cavaleiro de Méré, um nobre que
gostava de jogar e apostar, mas queria ter mais
certeza sobre as suas posibilidades de ganhar
e perder.
No mesmo ano de 1654, Pascal
optou pela vida religiosa, indo morar no Mosteiro
de Port-Royal. Em 1662, um grupo de monges deste
mesmo mosteiro, financiados indiretamente por
Pascal, publicou um livro denominado "Lógica
ou a Arte de Pensar". Neste livro os diversos
autores, principalmente Antoine Arnauld, tido
como um dos mais brilhantes teólogos de
sua época, agregaram a noção
de valor à probabilidade do risco. Estes
autores escreveram:
"O medo do dano deveria ser proporcional,
não apenas à gravidade do dano,
mas também à probabilidade do evento."
Avaliação
do Risco pela relação Dano/Ocorrência
| Dano Grande |
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| Dano Médio |
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| Dano Pequeno |
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Improvável |
Pouco provável |
Muito provável |
Extremamente
provável |
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Ocorrência do evento
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Situação
de baixo risco associado |
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Situação
de alto risco associado |
Modificado
de Heller R. Como tomar decisões. São
Paulo: Publifolha, 1999:42
Desta proposta surge, posteriormente
a noção de utilidade. Este também
novo conceito revolucionou a teoria da tomada
de decisão, introduzindo a possibilidade
de se avaliar a relação risco-benefício
ou custo-benefício.
Uma importante questão que deve sempre
ser discutida é a do risco percebido pelo
paciente. Muitas vezes o risco é superestimado
ou subestimado. Em situação de pesquisa,
em uma amostra de participantes brasileiros, o
item menos recordado, entre procedimentos, benefícios
e riscos, foi o risco. Uma explicação
possível para esta ocorrência pode
ser a característica cultural brasileira
de evitar incertezas, de não saber conviver
com riscos, paradoxalmente à realidade.
Em um estudo sobre riscos assistenciais, realizado
na Inglaterra, os pacientes superestimaram um
risco cirúrgico real de 2% para até
65%.
Estes dados reforçam a idéia de
que como é importante explicar adequadamente
o risco associado a procedimentos assistenciais
e de pesquisa. Como é fundamental verificar
o grau de compreensão das informações
prestadas aos pacientes ou voluntários.
Kennedy Institute
of Ethics. Bioethics Thesaurus. Washington: Georgetown,
1995:44.
Brasil. Conselho Nacional de Saúde. Resolução
n° 196/96 sobre pesquisa envolvendo seres
humanos (DOU 16/10/96:21082-21085).
Shrader-Frechette K. Ethics of scientific research.
Boston: Rowman & Littlefield, 1994:105.
Bernstein PL. Desafio aos deuses: a fascinante
história do risco. São Paulo: Campus,
1997:17,57-71.
Heller R. Como tomar decisões. São
Paulo: Publifolha, 1999:42
Lloyd A, Hayes P, Bell PR, Naylor AR. The role
of risk and benefit perception in informed consent
for surgery. Med Decis Making 2001 Mar-Apr;21(2):141-9
Fonte: Texto
incluído em 28/04/97 e atualizado em 21/09/2001
(C)Goldim/1997-2001

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