I Congresso
Internacional de Feng Shui
I Encontro Internacional de Geobiologia
III Congresso Brasileiro de Radiestesia e Radiônica
São Paulo, 27 e 28 de Outubro de 2.001
GEOLOGIA E
HABITAÇÃO
Por: Antonio Manoel
dos Santos Oliveira
Laboratório de Geociências. Universidade
Guarulhos
Resumo
Geologia é a ciência que estuda
a Terra, sua estrutura, composição,
e que se realiza pela revelação
da história do Planeta. Habitação
é espaço físico que o Homem
ocupa para a realização dos vários
aspectos da sua Vida. O que eles tem em comum?
Podemos inicialmente procurar compreender a
nossa habitação como sendo a Terra.
A primeira pergunta que surge é como
este Planeta oferece ao Homem condições
para ser habitado para a evolução
da Vida ? Procurando a resposta, poderíamos
concluir que a evolução geológica
e biológica são interrelacionadas,
ou seja, há uma co-evolução
Vida - Terra; que a Vida se desenvolve por cooperação
e incorporação, formando novos
seres e que o sentido da evolução
da Vida é o de uma consciência
cada vez maior.
Em seguida podemos nos indagar sobre a evolução
do Homem e das suas habitações
em relação às condições
geológicas locais, hoje pesquisadas como
sítios arqueológicos, desde aos
primeiros abrigos nas cavernas, até as
grandes cidades, que representaram o poder das
primeiras civilizações. E poderíamos
concluir que o Homem evolui em íntima
dependência dos recursos naturais, inclusive
os geológicos; que a evolução
tecnológica produz transformações
ambientais ou seja, há uma co - evolução
tecnologia - ambiente; que as cidades, representando
o processo civilizatório, também
estão sujeitas a uma contínua
transformação devido a essa co
- evolução tecnologia - ambiente;
que os fenômenos geológicos profundos,
como vulcanismo e terremotos, provocam intensas
alterações locais, mas não
alteram tanto o curso da história; que
a perda de terras agricultáveis devida
a fenômenos geológicos superficiais
como erosão e salinização
são mais importantes; e que o Homem,
após a revolução agrícola,
compara-se a um agente geológico atuando
na transformação do Planeta
Em continuidade à nossa análise,
poderíamos examinar as condições
das nossas cidades atuais, como definir seus
comportamentos frente às suas condições
geológicas, e quais são os instrumentos
de políticas públicas, que hoje
dispomos para resolver os problemas que surgem
da relação Geologia x Habitação.
E concluiríamos que as cidades funcionam
como um grande organismo; que suas funções
orgânicas de alimentação,
metabolismo e excreção dependem
de fatores geológicos; que há
leis suficientes para indicar a melhor orientação
do crescimento das cidades; que há tecnologia
suficiente para dar suporte às leis;
e que a consciência de que o Homem compara-se
a um agente geológico e seu poder tecnológico,
lhe confere total responsabilidade por seus
atos de transformação de sua moradia,
o Planeta.
Há um terceiro nível de abordagem
que é o do terreno específico,
o terreno da nossa casa. Nas observações
que fazemos, do local onde ele está situado,
verificamos em que posição do
relevo o terreno se situa; se no fundo do vale,
se no alto da colina ou a meia encosta, e as
condições geológicas decorrentes
deste fato. Então se concluiria que não
há um lugar igual a outro; que a condição
geológica determina o comportamento do
terreno; que a circulação da água
no terreno e no local onde ele está situado
é o principal fator que mobiliza esse
comportamento.
Finalmente, pode-se considerar que o corpo
físico de cada Homem constitui a sua
derradeira habitação e mesmo nela
encontramos os traços da Geologia do
Planeta, pois sua constituição
física tem como matéria prima
os minerais, a água e o ar da Terra.
Concluiríamos então que, do seu
corpo físico, às edificações,
às cidades e ao Planeta não há
como deixar de lado a Geologia.
1. Introdução
O objetivo deste trabalho é o de traçar
as principais relações que conectam
a Geologia e a Habitação. Entende-se
Geologia como a ciência que estuda a Terra,
sua estrutura, composição e que
se realiza pela revelação da sua
história. E Habitação como
sendo o espaço físico que o Homem
ocupa para a realização dos vários
aspectos da sua Vida.
Há muitas formas de se traçar
estas as relações. Vamos então
verificar algumas delas.
2. Terra : um Planeta vivo
Parece-me estranho que as pessoas sejam, em
geral, tão descuidadas sobre a constituição
deste Planeta, das suas leis e dos fatos geológicos
das quais dependem, não somente seu conforto
e suas riquezas, mas sua saúde e suas
próprias Vidas e as Vidas dos seus filhos
e descendentes. Charles Kingsley, 1887, Town
Geology. Londres.
Vista da distância da Lua, o que há
de mais impressionante com a Terra, o que nos
deixa sem ar, é o fato dela estar viva.
Lewis Thomas (The Lives of a Cell) in Lovelock
(1991)
Terceiro Planeta do sistema solar, a Terra
se apresenta como o único Planeta desse
sistema com Vida, como a conhecemos. Mas, quais
foram as condições que propiciaram
a Terra oferecer habitação para
a Vida? Quais as condições que
possibilitaram a sua evolução,
do mineral ao Homem?
Inicialmente podemos considerar que a Terra
é um Planeta vivo porque apresenta uma
intensa dinâmica geológica, representada
pelos terremotos e vulcões, sentida na
superfície terrestre, mas resultante
de gigantescos processos profundos, gerados
pelo calor interno do Planeta. Não é
o que podemos ver na superfície dos Planetas
próximos, como Vênus e Marte, e
da Lua, aparentemente imóveis, mostrando
cicatrizes de processos que hoje não
mais se manifestam, como crateras vulcânicas,
grandes fissuras e mesmo aparentes linhas de
drenagem de hipotéticos cursos d'água
antigos. Na Terra, estas manifestações
estão sendo compreendidas por meio da
Teoria da Tectônica de Placas, através
da qual o deslocamento dos continentes e dos
fundos dos oceanos, vem criando e recriando,
há bilhões de anos, uma série
infinita de diferentes ambientes geológicos.
Mas o caráter de Vida do Planeta não
é só conferido por sua Geologia
dinâmica, mas também pelo fato
de que a Vida também age na transformação
da Terra, transformando a Terra para os seus
próprios fins, conforme a Teoria de Gaia
(Lovelock, 1991). Então a Terra não
é um mero suporte para a Vida. A Vida
conquistou a Terra, criou a Biosfera e procura
desenvolver as melhores condições
para evoluir.
Vemos assim que, ao combinarmos as duas teorias,
das Placas e de Gaia, revelam-se leis fundamentais
da evolução do Planeta: O Planeta
está em contínua transformação.
A evolução geológica e
biológica são interrelacionadas,
ou seja, há uma co - evolução
Vida - terra.
Estas leis implicam num grau maior do caráter
vivo do Planeta, chegando Lovelock (1991) a
considerar sua capacidade homeostática,
ou seja, a de regular a sua temperatura atmosférica.
Desde o nascimento do Sistema Solar o Sol aumentou
a sua luminosidade em 25 % , mas a temperatura
da Terra, segundo a Teoria de Gaia, tem sido
regulada pela Vida, mantendo-se relativamente
constante. É notável também
a capacidade da Vida em reciclar resíduos
isto é, de dar destino aos resíduos
de um organismo, fazendo com que eles sejam
o alimento de outros. O exemplo mais notável
é o do oxigênio do ar que respiramos,
que é resíduo dos organismos fotossintetizantes,
das cianobactérias às árvores.
Se não houvesse Vida no Planeta a temperatura
e a composição da atmosfera, bem
como da superfície terrestre, poderiam
ser calculadas somente com base em fatores físico
- químicos e, certamente, seriam muito
diferentes dos atuais. É o caso dos demais
Planetas do Sistema Solar, considerados mortos.
Completa este quadro da morada da Vida no Planeta
mais uma teoria, a da evolução
simbiótica, ou seja, a origem de novos
tecidos, órgãos, organismos e
até espécies, por meio da simbiose
permanente ou de longo prazo. Desenvolvida pela
bióloga Lynn Margulis, a Teoria da Simbiogênese
(Margulis, 2.001), fundamenta-se na verificação
de que certos componentes das células
de plantas e animais (organelas) correspondem
a bactérias que teriam sido incorporadas
nessas células, dada a semelhança
de seus DNA e das bactérias. Um dos principais
exemplos é o das mitocôndrias,
organelas responsáveis pela respiração
do oxigênio nas nossas células
que, segundo essa teoria, foram, no passado,
bactérias que respiravam.
Então, podemos acrescentar àquelas
leis, a lei decorrente desta teoria da evolução
simbiogênica, ou seja, a Vida não
se desenvolve somente por seleção
natural e competição (visão
darwiniana), mas também por cooperação
e incorporação entre espécies
diferentes, formando novos seres. Entretanto
para que a Vida fique assim protegida no Planeta,
não podemos esquecer do campo magnético
terrestre que defende a Terra do vento solar
e da camada de ozone que protege os seres das
radiações ultravioleta.
Finalmente, podemos considerar que a história
da Terra nos dá muitas evidências,
por exemplo os fósseis, de que há
um sentido para a evolução da
Vida que aponta para uma complexidade cada vez
maior do sistema nervoso e desenvolvimento do
cérebro de forma a Vida alcançar,
no Homem, a consciência de si mesmo e
do ambiente. Teillard de Chardin (1889) chama
a este processo de ascensão da consciência.
É o que Vernadsky (1945) considera, ao
fundamentar seu conceito de noosfera - a esfera
da razão, como um conceito que traduz
a evolução geosfera - biosfera
- noosfera. Então podemos agregar mais
uma lei, a de o sentido da evolução
da Vida é uma consciência cada
vez maior.
Em resumo:
· O Planeta está em contínua
transformação.
· A evolução geológica
e biológica são interrelacionadas,
ou seja, há uma co - evolução
Vida - terra.
· A Vida se desenvolve por cooperação
e incorporação, formando novos
seres.
· O sentido da evolução
da Vida é o de uma consciência
cada vez maior.
3. As primeiras habitações e as
cidades
A ascensão e queda das civilizações
são normalmente discutidas em termos
de lideranças fortes ou fracas, ou deterioração
dos sistemas político-sócio-econômicos.
Só raramente, os historiadores sugerem
outros fatores, especificamente geológicos,
como fatores primários ou fortes fatores
secundários que influenciaram as direções
tomadas pelo curso da história humana.
Mirsky, 1982.
O estudo dos ancestrais humanos fundamenta-se
na análise de seus vestígios diretos,
partes dos seus esqueletos fossilizados, e indiretos,
artefatos tais como instrumentos de pedra, pegadas
e pinturas nas cavernas. Em todos estes vestígios
as relações com a Geologia é
significativa, tanto nos processos de fossilização
dos ossos, como das pegadas em cinzas de vulcões
em erupção, e nos artefatos de
pedras selecionadas por suas propriedades de
resistência mecânica e produção
de cantos cortantes, como o silex.
Mas, para o tema em foco deste trabalho, cabe
destacar as cavernas como, provavelmente, as
mais primitivas habitações dos
seres humanos, para se abrigarem do frio e de
ataques. A probabilidade maior de encontrar
cavernas aponta para as formações
calcárias que oferecem também
condições geológicas para
a preservação de fósseis
e artefatos ao abrigo das intempéries.
No Brasil as grutas de Lagoa Santa em Minas
Gerais constituem o exemplo brasileiro mais
conhecido das cavernas como habitação.
Embora o Homem tenha se dispersado por toda
Planeta, há várias dezenas de
milhares de anos, enquanto suas atividades corresponderam
aos dos caçadores e coletores, é
provável que não tenham desenvolvido
de forma considerável a habitação,
tendo em vista seu comportamento nômade
sempre à busca dos alimentos, embora
haja vestígios de aldeias de caçadores,
como em Lepenski Vir, um aldeamento paleolítico,
às margens do Danúbio (Reader's
Digest, 1979) e, atualmente, ainda possamos
visitar aldeias e habitações de
povos caçadores em várias partes
do Planeta (iglus dos esquimós, tendas
dos lapões, ocas de índios, etc.)
.
As primeiras cidades, ou aglomerações
de edificações organizadas com
certo propósito e funcionalidade de sociedades
humanas, se desenvolveram com a Revolução
Agrícola que propiciou a produção
de alimentos e formas mais complexas de divisão
do trabalho, há cerca de 10 ou 12.000
anos. Esta idade não é casual,
mas coincide com o final da última glaciação.
Temos portanto como ponto de partida do processo
civilizatório, a revolução
agrícola e a correspondente revolução
urbana, ambas marcadas por um fenômeno
geológico: o recuo das geleiras.
Assim, foram se transformando os seres nômades,
que viviam da caça e da coleta de alimentos
em produtores de alimento, agricultores sedentários,
se transformando nos primeiros seres urbanos.
Edificações de pedra, como as
muralhas de Jericó, no Vale do rio Jordão,
construídas há cerca de 9.000
anos no Vale do Mar Morto, a 23 km de Jerusalém,
junto a fonte de água potável
de Tell es Sultan, um oásis no deserto,
e edificações de tijolo como em
Çatal Hüyük à margem
de um rio no Planalto da Anatólia na
Turquia, com cerca de 8.000 anos já indicam
a íntima dependência dos diferentes
materiais de construção, localmente
disponíveis.
O desenvolvimento agrícola, ampliando
a capacidade de produção de alimentos
proporcionou o acúmulo de inovações
técnicas, como o fabrico de tijolos e
de ladrilhos, a arte da vidraria, a metalurgia
do cobre e do bronze, os silos, a escrita, a
numeração, o calendário
e, por fim, a arquitetura monumental, caracterizando
o que Ribeiro (1975) denomina de Revolução
Urbana e que pode ser exemplificada pelas cidades
sumérias de Ur, Uruk e outras na Mesopotâmia,
entre 7.000 e 5.000 anos atrás. Estas
cidades, que chegaram a ter centenas de milhares
de habitantes, desenvolveram-se por centenas
de hectares, nos vales do Tigre e Eufrates.
Formaram-se as Cidades - Estado, como processo
civilizatório propiciado pela Revolução
Urbana. Nessa região floresceu Babilônia.
A relação fundamental de Babilônia
com a Geologia local era a existência
de solos férteis em planícies
de inundação irrigáveis
das Bacias do Tigre e Eufrates, o que implicava
em desenvolvimento de técnicas agrícolas
e hidráulicas avançadas. Entretanto,
não existiam jazidas de rochas que pudessem
ser exploradas para fornecer pedras para a construção.
Como alternativa, as mesmas planícies
forneceram as argilas para a fabricação
de tijolos e também de ladrilhos, além
do junco para fibras de reforço das construções,
o que estimulou o desenvolvimento de técnicas
industriais, ceramistas e da construção,
e, ainda, da engenharia e da arquitetura, avançadas
ao ponto de permitirem a construção
dos seus jardins suspensos e seus zigurates,
torres piramidais, "as casas da aliança
do céu e da terra".
As primeiras cidades destacam portanto importantes
relações com a Geologia como o
uso dos solos férteis de planícies
aluviais, de água, tanto para o abastecimento
como para a irrigação, e materiais
naturais de construção cuja disponibilidade
local, pedra ou argila, foi transformada para
o propósito da construção.
Estudos mais detalhados das antigas civilizações
apontam vários outros fatores geológicos.
Para antiga civilização egípcia
Mirsky (1997) aponta os seguintes recursos naturais:
argila para tijolos da planície de inundação
do Nilo, pedras para construção
(calcário e arenito das margens do Nilo;
granito de Aswan, etc.); ouro e prata da Núbia;
galena (chumbo) das colinas do mar vermelho;
cobre próximo a Aswan; etc. Devemos ainda
considerar a importância da planície
de inundação do Rio Nilo, cuja
agricultura irrigada constituiu a base da civilização
e as barreiras naturais do Mar Vermelho e do
deserto, constituindo obstáculos naturais
a invasores.
Na América recentemente foi descoberta
a sua mais antiga cidade, a de Caral, no Peru,
com cerca de 4.600 anos, que teria abrigado,
em 1 a 2 km2, cerca de 3.000 pessoas. Curiosamente,
apresenta algumas características das
cidades do Oriente - Médio, irrigação
e pirâmides.
Vemos portanto que o Homem, seguindo comportamento
similar a dos seres vivos, mas de forma pensada,
se adapta ao ambiente, buscando e usufruindo
dos recursos naturais no seu processo civilizatório,
porém transformando-o. A partir da revolução
agrícola há uma mudança
qualitativa importante nesse comportamento.
A transformação do meio ambiente
provocada por suas atividades como produtor
de alimentos cresce exponencialmente em intensidade
e extensão, ao ponto de provocar alterações
geológicas importantes que chegam a ser
prejudiciais às suas próprias
atividades, como os processos de erosão
e de salinização das terras irrigadas.
Por outro lado, as cidades são também
atingidas e destruídas por manifestações
geológicas como os terremotos e os vulcões.
Mas é importante observar que, para intensidades
semelhantes de manifestação de
terremotos, o número de vítimas
é função das técnicas
de construção das edificações.
Em 1. 999 um terremoto na Turquia com intensidade
de 7,4 graus na escala Richter provocou a morte
de 30.000 pessoas. Nesse mesmo ano um terremoto
com intensidade de 7, 6 provocou a morte de
2.100 pessoas em Taipé (Taiwan). Estes
terremotos podem ser comparados ao de São
Francisco com intensidade 7,1 quando 62 pessoas
morreram, em 1989.
Quanto aos vulcões, os exemplos mais
conhecidos são os do Monte Vesúvio
cuja manifestação no ano de 79
da era cristã foi responsável
pela destruição de Pompéia;
o de Cracatoa na Indonésia com seus mais
de 36.000 mortos, em 1.883 e o do Monte Pelée
na Martinica que, em 1902, provocou a morte
de cerca de 29.000 pessoas.
Entretanto, as catástrofes vulcânicas
ou sísmicas não alteraram significativamente
os hábitos das populações.
Os arredores de Pompéia continuaram sendo
agricultados e no Hawai convive-se com os derrames
de lava. As cidades arruinadas pelos terremotos
foram reconstruídas. Então, de
uma maneira geral, pode-se dizer que os fenômenos
geológicos bruscos não tem modificado
praticamente o curso da história (Termier,
1966). Talvez as manifestações
geológicas superficiais, como erosão
e salinização de terras irrigadas,
constituam fatores mais poderosos, por terem
destruído aos poucos, mas inexoravelmente,
a economia de antigas civilizações,
apoiadas na agricultura irrigada.
Hoje há clara percepção
da magnitude das mudanças provocadas
pela ação do Homem na superfície
terrestre, comparáveis, às mudanças
de origem natural (Sergeev, 1980) desde que
ele iniciou sua evolução cultural,
há dez mil anos (Bronowski, 1979).
Considerada como primeira revolução
tecnológica da humanidade, a revolução
agrícola, seguida da revolução
urbana, constitui assim um marco notável
na história da transformação
do meio ambiente pelo Homem. Segundo Ribeiro
(1975), é possível seriar o desenvolvimento
tecnológico em passos evolutivos do progresso
humano, ou seja, as civilizações
podem ser caracterizadas pelas técnicas
que utilizam, para sua sobrevivência e
reprodução, no tempo e no espaço
do Planeta. O estágio evolutivo da técnica
implica formas e intensidades diferentes da
ação do Homem no meio ambiente,
resultando em impactos também diferenciados.
Por isso, Ter-Stepanian (1988) propôs
que a época dos 10.000 anos até
hoje (Holoceno) seja considerado uma transição
do período geológico Quaternário
para o Quinário, caracterizado pela intensa
transformação da Terra pelo Homem.
O mesmo autor propôs que o Holoceno fosse
conhecido por Tecnógeno, ou seja gerado
pela técnica. O termo tecnogênico
destaca a importância em se considerar
que os eventos resultantes da ação
humana refletem uma ação técnica.
De fato, a técnica, conjunto de processos
por meio dos quais os homens atuam na produção
econômica, na arte e qualquer outra atividade
que envolva objetos materiais, surge com o Homem
e marca sua evolução. Assim, o
termo tecnogênico, além de traduzir
fenômenos provocados pelo Homem, traz
implícita a idéia de que tais
fenômenos são qualitativa e quantitativamente
diferentes ao longo da sua história evolutiva.
Em resumo:
·» O Homem evoluiu em íntima
dependência dos recursos naturais, inclusive
os geológicos.
·» A evolução tecnológica
produz transformações ambientais
ou seja, há uma co - evolução
tecnologia - ambiente.
·» As cidades, representando o
processo civilizatório, também
estão sujeitas a uma contínua
transformação devido a essa co
- evolução tecnologia - ambiente.
·» O Homem, após a revolução
agrícola, compara-se a um agente geológico
atuando na transformação contínua
do Planeta.
·» Os fenômenos geológicos
profundos, como vulcanismo e terremotos, provocam
intensas alterações locais, mas
não alteram tanto o curso da história
quanto os fenômenos superficiais que provocam
a perda de terras agricultáveis.
4. As cidades modernas
Como um ser vivo, as cidades crescem à
custa do que as rodeia. O grande alimento das
cidades é a terra, que, tomada no seu
imediato sentido de superfície limitada,
ganha o nome de terreno, no qual, feita esta
operação lingüística,
passa a ser possível construir. E enquanto
nós vamos ali comprar o jornal, o terreno
desaparece, e em seu lugar surge o imóvel.
José Saramago. As terras. 1995.
O desenvolvimento tecnológico e o crescimento
da população humana caminharam
juntos, com saltos marcados pelas mais importantes
revoluções tecnológicas,
a do desenvolvimento de ferramentas de caça,
incluindo o fogo, (entre 1 e 2 milhões
de anos atrás), a agrícola, seguida
da urbana (há 10.000), e a industrial
(a partir do século XIX). Há 10.000
anos éramos cerca de 4 milhões
e, em 1850 atingimos 1 bilhão de indivíduos.
Depois levamos 80 anos para dobrar a população
para 2 bilhões (1930). Mais 45 anos e
chegamos a 4 bilhões (1975). Mais 25
anos a 6 bilhões (2.000).
Ao mesmo tempo, a população foi
se concentrando nas cidades. Em 1950 apenas
25 % da população mundial habitava
as cidades. Hoje estima-se que essa porcentagem
cresceu para metade, ou seja, 3 bilhões
de seres humanos são urbanos. O fenômeno
é mais intenso nos países desenvolvidos
cuja população urbana é
de 75 %, cifra que hoje se aplica ao Brasil.
No estado de São Paulo essa porcentagem
atinge quase 90%, indicando que o processo de
total urbanização seja a perspectiva
futura da humanidade.
4.1 Concebendo um modelo
Mas, afinal, o que é uma cidade? E o
que ela tem a ver com a Geologia?
Segundo o Swedish Urban Council (2.000) a cidade
é a nossa mais antiga obra de arte. A
diferença é que nós moramos
nessa obra. Ela nos foi dada por nossos ancestrais
para ser entregue em melhores condições
a nossos filhos e nossos netos.
Para uma compreensão prática
da cidade, ou seja, sobre a qual possamos pensar
e atuar, podemos imaginar um corpo constituído
por 3 partes ou estruturas (Carvalho, 1999),
com um modelo de fisiologia análogo ao
de um organismo vivo, ou seja, com uma geofisiologia
urbana.
Segundo o referido autor, a cidade pode ser
compreendida como superposição
de 3 partes ou camadas interativas, que definem
seu arcabouço estrutural físico.
A camada da super-estrutura, corresponde ao
conjunto das moradias, das edificações
do comércio, da indústria, da
educação, do lazer, enfim é
camada das funções inerentes à
Vida dos cidadãos e da sociedade. A meso-estrutura,
que inclui o sistema viário, de água,
de esgoto, galerias de drenagem e similares,
conjunto conhecido por obras públicas,
também é chamada de infra-estrutura
por quem se esquece que tais obras não
estão no vazio, mas ocupam os solos,
estes sim, a infra-estrutura, o que sustenta
a cidade. Portanto há uma infra-estrutura
que corresponde ao sistema geológico,
que, geograficamente, está não
só no solo de uma cidade, mas nas adjacências,
e mesmo em áreas mais remotas, sustentando-a.
A cidade, em sua dinâmica, fazendo interagir
as 3 estruturas, se abastece de água,
se alimenta de recursos minerais e materiais
de construção, cresce, transformando
seu habitat, de onde retira sustentação
e estabilidade para suas funções
essenciais, excreta seus dejetos em forma de
diversos tipos de lixo, ou seja, reproduz a
fisiologia de um organismo vivo que se reproduz
e forma regiões metropolitanas como colônias
de organismos, mobilizando inúmeros fatores
geológicos regionais.
Como a sustentabilidade da cidade vem do sistema
geológico podemos examinar os fatores
geológicos em cada uma das suas ações
fisiológicas, seus processos vitais de
alimentação, metabolismo e excreção,
além da sustentação local.
Os fatores geológicos de alimentação
dizem respeito, basicamente, ao abastecimento
de água, superficial ou subterrânea,
e ao fornecimento de matérias primas
para a construção, pouco transformadas,
como areia e brita; ou muito transformadas como
argilas de tijolos e cerâmicas; como calcários
de cimento; como ferro de construção
ou de encanamentos; como alumínio de
fios e peças; como petróleo de
plásticos diversos; etc. A este conjunto
poderíamos acrescentar o sistema de energia
produzida em diversas fontes como da hidroeletricidade
dos aproveitamentos dos rios, suas vazões
e quedas, condicionadas por fatores geológicos
e dos combustíveis do petróleo,
gerado por condições geológicas
especiais. E ainda os solos que, indiretamente,
oferecem as condições geo-agrícolas
para a produção de alimentos,
marcando sua importância desde as primeiras
cidades associadas à agricultura e à
irrigação.
Os fatores geológicos do metabolismo
condicionam os processos das diversas engenharias,
civil, mecânica, etc. que transformam
as matérias primas e a energia em obras
da super e meso-estruturas. Essas condições
são as da infra-estrutura, com respeito
a fundações, obras subterrâneas
como o metrô e as de estabilidade dos
terrenos em relação aos processos
geológicos, como erosão e escorregamentos,
assoreamento e inundações, riscos
geológicos a serem evitados.
Os fatores geológicos da excreção
dizem respeito às condições
geológicas mais adequadas à disposição
dos dejetos sejam eles domésticos ou
não; gasosos, líquidos ou sólidos,
tratados ou não; de maneira a não
produzirem impactos ambientais indesejáveis
de contaminação das terras e das
águas.
Para orientar as ações mais adequadas
ao aproveitamento das condições
geológicas dispomos de leis e de instrumentos
de gestão, cuja aplicação
constitui o principal meio para otimizar o aproveitamento
da Geologia, reduzindo custos e evitando desastres.
4.2 Leis
Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial
à sadia qualidade de vida, impondo-se
ao Poder Público e à coletividade
o dever de defendê-lo e preservá-lo
para as presentes e futuras gerações.
Capítulo VI - Do Meio Ambiente . Constituição
Brasileira, 1.988
Os instrumentos legais são vastos, desdobrando-se
da Constituição Federal de 1.988
e das Constituições Estaduais
em seus capítulos do Meio Ambiente.
A Constituição Federal obriga
aos municípios com mais de vinte mil
habitantes a terem um plano diretor que deve
conter um diagnóstico sobre a vocação
geológica dos terrenos, quais os seus
usos possíveis e suas limitações,
portanto que seja feito um zoneamento municipal
para a ordenação da cidade. Há
as leis que estabelecem o zoneamento industrial,
especialmente nas áreas críticas
de poluição nas regiões
metropolitanas (Decreto 76.389/75).
No parcelamento urbano destaca-se a Lei Federal
6.766/79, também conhecida por Lei Lehman,
que estabelece restrições e orientações
ao parcelamento urbano, não permitindo-o
em terrenos alagadiços e sujeitos a inundações;
em terrenos com declividade igual ou superior
a 30% e em áreas cujas condições
geológicas desaconselham a edificação,
o que exige a realização de um
laudo geológico que realize tal avaliação.
Podem ainda ser citadas as leis dos recursos
hídricos, que orientam o estabelecimento
do planejamento, da formação de
Comitês de Bacias e de Agências
das Águas; leis com respeito à
poluição atmosférica e
que orientam a disposição de resíduos;
leis da exploração mineral; etc.
Finalmente, destacam-se os instrumentos da
Política Nacional do Meio Ambiente (Lei
Federal 6.938 de 1.981), principalmente o Estudo
de Impacto Ambiental - EIA - obrigatório
para o licenciamento de empreendimentos que
podem provocar impactos significativos no meio
ambiente. Nas cidades tais empreendimentos podem
ser projetos urbanísticos acima de 100
hectares ou em áreas de interesse ambiental,
loteamentos, aterros sanitários, rodovias,
linhas de transmissão, aeroportos, barragens,
extração de minérios e
de materiais de construção; oleodutos,
etc. Tais estudos e seu Relatório de
Impacto Ambiental -Rima - identificam e avaliam
os impactos possíveis; propõem
alternativas de projeto mais adequadas, estabelecem
medidas para corrigir os impactos ambientais
desfavoráveis, medidas compensatórias
e monitoramento da implantação,
operação e, eventualmente, desativação
do empreendimento e da sua área de influência.
É importante lembrar que o EIA - Rima
constitui um procedimento que prevê a
realização de audiências
públicas para expor os resultados dos
estudos, receber críticas e sugestões
de todos os interessados.
Podemos ver que a legislação
brasileira é rica em documentos legais
úteis à adequação
das diversas atividades urbanas aos condicionantes
ambientais e portanto geológicos. Cabe
que os governantes as apliquem.
É importante lembrar que pela defesa
do interesse da sociedade há meios processuais
para a defesa do meio ambiente. A Ação
Civil Pública de Responsabilidade por
Danos ao Meio Ambiente e outros (Lei 7.347 de
1.985) pode ser proposta pelo Ministério
Público, a União, os estados,
os municípios, empresas, etc. e mesmo
associações. A Ação
Popular (Lei 4.717/65) pode ser proposta por
qualquer cidadão contra o Estado também
para prevenir danos ambientais, sendo a única
dificuldade para a ação ser totalmente
popular a necessidade de contratar advogado,
o que, entretanto, pode ser dispensável
se a ação for encampada pelo Ministério
Público. Finalmente, deve-se destacar
a existência de lei que trata de crimes
ambientais (Lei 9.605 de 1998) que sistematiza
as penalidades.
4.3 Instrumentos de gestão
Os instrumentos acima apresentados, como os
Laudos Geológicos de loteamentos, os
Planos Diretores Municipais e os EIA - Rimas,
decorrentes das leis, podem ser subsidiados
por estudos geológicos tais como cartas
geotécnicas e cartas de risco geológico.
As cartas geotécnicas são mapas
das cidades e áreas vizinhas que apresentam
as potencialidades e limitações
dos terrenos ao uso urbano do solo. Várias
cidades brasileiras dispõem destas cartas
que apresentam recomendações ao
assentamento urbano: São Paulo, Rio de
Janeiro, Campo Grande, Cuiabá, etc.
As cartas de risco geológico assinalam
em mapas as áreas sujeitas à eventual
manifestação de processos geológicos
como, por exemplo, escorregamentos, e as áreas
e as habitações sujeitas a danos.
Finalmente destacam-se os Planos Preventivos
de Defesa Civil que atuam com base no diagnóstico
de riscos geológicos e tem o papel de
eliminar ou reduzir a probabilidade de manifestação
de acidentes geológicos e de alertar
ou remover habitantes sujeitos a risco em determinadas
épocas como, por exemplo, por ocasião
do período de chuvas em várias
cidades como Santos e outros municípios
do litoral paulista.
Em resumo:
·» As cidades funcionam como um
grande organismo. Sua alimentação,
metabolismo e excreção dependem
de fatores geológicos.
·» Há leis suficientes para
indicar a melhor orientação do
uso urbano adequado do solo.
·» Há tecnologia suficiente
para dar suporte aos instrumentos legais para
realizar essa orientação.
·» A consciência de que o
Homem compara-se a um agente geológico
e seu poder tecnológico, lhe confere
total responsabilidade por seus atos de transformação
do Planeta, sua moradia.
5. Observando o terreno
Jamais se fez tanto pela arte de curar quanto
na época de Hipócrates. Este observador
escrupuloso investigou a natureza dentro da
própria natureza. Descreveu as doenças
exatamente, sem nada ajuntar, sem fantasias
e sem permitir nenhum devaneio.
Samuel Hahnemann in Brunini (1998)
Além do Planeta e da cidade, há
um terceiro nível de abordagem que é
o do terreno específico, o terreno da
nossa casa. Não há outro igual,
nem na cidade, nem no Planeta. Nele vivemos
e usufruímos das condições
geológicas específicas locais.
Observemos a forma do relevo onde está
situado o terreno. A forma do relevo representa
sempre um certo conteúdo e um comportamento,
que podem portanto ser previstos. Embora de
forma muito simples e resumida estas observações
são úteis para orientar investigações
mais detalhadas com o objetivo de se desenvolver
as técnicas necessárias para a
prevenção dos fenômenos
indesejáveis e evitar riscos geológicos.
Nestas observações verificamos
em que posição da vertente ele
se situa, se no fundo do vale, se no alto da
colina ou nas encostas, e as condições
geológicas decorrentes deste fato.
Assim, nos fundos dos vales sabe-se que a água
está mais presente ao longo do tempo
e próxima à superfície
que nas encostas ou no alto dos morros. É
no fundo dos vales que se encontra a maioria
das fontes que alimentam os cursos d'água.
São áreas mais úmidas ou
mesmo encharcadas quando os terrenos se situam
em várzeas que, aliás, precisam
ser aterradas para poderem ser ocupadas. Os
fundos dos vales são as áreas
do relevo que recebem os materiais erodidos
das encostas. Sua vocação é
a da formação de depósitos
desses materiais. A presença persistente
da água nos fundos dos vales dá
origem a solos denominados hidromórficos,
quase sempre saturados de água. É
no fundo dos vales, sobretudo os vales abertos
com pequenas declividades, que se encontram
os solos mais finos, mais argilosos, freqüentemente,
como muitos restos vegetais nas várzeas
onde se formam solos denominados orgânicos
e mesmo turfas, onde há mais matéria
orgânica que areias.
Com estas características geológicas
os terrenos dos fundos dos vales podem apresentar
os seguintes comportamentos principais: alagamentos
ou inundações, principalmente
durante períodos de chuvas intensas e
recalques, afundamento ou inclinação
das edificações. Tais terrenos,
sobretudo em vales mais fechados, além
da umidade, apresentam temperaturas mais baixas
e portanto condições menos salubres
que os das encostas. Há entretanto fundos
de vales com maiores declividades que favorecem
o escoamento de água em regiões
montanhosas.
Ao contrário, os topos dos relevos,
colinas ou morros, com seus níveis freáticos
profundos, em geral favorecem a infiltração
da água e não o seu escoamento
na superfície, a menos que tenham reduzida
permeabilidade. Seus solos são em geral
mais arejados e espessos quando esses topos
são extensos e planos. Entretanto, por
serem menos abrigados estão mais sujeitos
aos ventos.
As encostas, que unem os topos aos fundos dos
vales, apresentam um certo balanço entre
infiltração e escoamento pela
superfície. Maiores inclinações
dos terrenos favorecem o escoamento superficial,
com redução relativa da parte
que se infiltra. Além disso, quanto mais
distante do topo e mais próximo do fundo
do vale, mais intenso é o caudal das
águas que descem a encosta.
As encostas constituem as partes do relevo que
estão mais sujeitas aos processos erosivos,
as ravinas, as boçorocas e os escorregamentos,
dependendo de uma série de fatores geológicos,
como declividade, tipo e espessura de solos.
Este é um dos palcos das manifestações
de acidentes geológicos que mais visitam
a imprensa que registra acidentes após
chuvas de grande intensidade. Tais acidentes
afetam a Vida de muitos moradores de encostas
perigosas, pressionados por falta de melhores
alternativas de moradia.
Em resumo:
·» A forma do relevo pode indicar
comportamentos geológicos.
·» Os topos das elevações
mobilizam mais as infiltrações
de água que escoamentos superficiais
e possuem, em geral, solos mais espessos e arejados.
·» Nas encostas, entre os topos
e os fundos dos vales, os escoamentos superficiais
aumentam com a inclinação dos
terrenos e com a proximidade dos fundos dos
vales. Nelas acontecem os processos erosivos.
·» Os fundos dos vales recebem
os materiais erodidos e as águas, produzindo
solos argilosos nas várzeas, sujeitas
a alagamentos e inundações.
·» Estas previsões são
úteis para a prevenção
de fenômenos geológicos indesejáveis.
6. Conclusão
Então, um pedreiro aproximou-se e disse:
"Fala-nos das habitações"
Vossa casa é o vosso corpo mais largo.
Cresce ao sol e dorme no silêncio da noite,
e ela também tem sonhos.
Vossa casa não sonha e, sonhando, escapa
da cidade para o bosque?
Gibran Kalil Gibran. O Profeta. 1923.
Embora tão afastadas no tempo e no desenvolvimento
tecnológico das cavernas e das primeiras
habitações humanas, as nossas
casas e mesmo os apartamentos dos altos edifícios,
ainda assim guardam relações com
a Geologia. As maiores diferenças entre
aquelas antigas habitações e estas,
estão expressas pelas maiores transformações
a que os materiais geológicos são
submetidos, desde a rocha até o cimento,
desde o petróleo às tintas e aos
plásticos, etc. e pela menor dependência
dos materiais locais, como exemplificam as instalações
das estações de pesquisa na Antártida.
Mas todas as edificações persistem
sempre dependentes dos materiais geológicos.
Para exemplificar:
O tijolo: a argila do tijolo de barro ou a
areia - calcário do bloco de cimento.
O telhado: a argila da telha ou a areia - brita
- ferro - calcário da laje.
A calha: a de cobre, zinco ou a do petróleo
do plástico PVC.
O azulejo: a argila, o caulim, o feldspato,
a dolomita.
O piso: o granito, o mármore ou a argila
da lajota.
A pia: o mármore da pia de pedra ou o
níquel - cromo - ferro da de aço
inox
A fiação: o cobre, o petróleo
do plástico.
A lâmpada: o quartzo do vidro e o tungstênio
do filamento.
Ao final, pode-se considerar que o corpo físico
de cada Homem constitui a sua derradeira habitação
e mesmo nela encontramos os traços da
Geologia do Planeta pois entende-se que sua
constituição física tem
como matéria prima os minerais, a água
e o ar da Terra.
Então, como seria possível separar
Geologia e Habitação, em todos
os níveis de abordagem que escolhemos?
Podemos nos ver sempre integrados aos terrenos
que habitamos, às nossas casas, ao nosso
Planeta -vivo, a Terra que ...
Vista da distância da lua, o que há
de mais impressionante com a Terra, o que nos
deixa sem ar, é o fato dela estar viva.
As fotografias mostram em primeiro plano a superfície
da lua, pulverizada e seca, tão morta
como um osso velho. No espaço flutuando
livre embaixo da membrana úmida e cintilante
de um luminosos céu azul, surge a Terra,
o que há de exuberante nesta parte do
cosmo. Se pudéssemos olhar por algum
tempo, veríamos o torvelinho das grandes
camadas de nuvens brancas, encobrindo e descobrindo
as massas de terra meio escondidas. Observando
por um tempo muito longo, um tempo geológico,
veríamos os próprios continentes
em movimento, flutuando à deriva, separados
em suas placas de crosta sustentadas pelo fogo
abaixo. Ela tem a aparência organizada
e auto - suficiente de uma criatura viva, plena
de sabedoria, maravilhosamente hábil
na manipulação do sol.
Lewis Thomas (The Lives of a Cell) in Lovelock
(1991)
7. Referências Bibliográficas
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